O que foi feito e o que falta fazer para evitar mais tragédias causadas por chuvas

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Falta de planejamento urbano, de medidas para prevenção e de formas de absorção da água pelo solo são traços comuns nas regiões afetadas; sistemas de alertas para enchente estão entre ações que funcionaram. G1 lista medidas de governo e prefeituras em 5 estados.


Bombeiros usam bote para resgatar pessoas de uma rua alagada na Vila Leopoldina, Zona Oeste de São Paulo, após forte chuva na capital paulista nesta segunda-feira — Foto: Rahel Patrasso/Reuters
Bombeiros usam bote para resgatar pessoas de uma rua alagada na Vila Leopoldina, Zona Oeste de São Paulo, após forte chuva na capital paulista nesta segunda-feira — Foto: Rahel Patrasso/Reuters

destruição e o caos que se repetem a cada nova temporada de chuvas fortes em diferentes regiões do país – como ocorreu neste verão em Belo Horizonte, Rio e São Paulo – têm ao menos dois fatores em comum:

  • falta de planejamento urbano nas cidades afetadas;
  • ausência de medidas para prevenção desse tipo de tragédia.

Especialistas apontam que há uma série de ações que o poder público deveria tomar para, ao menos, reduzir o impacto de alagamentos, enchentes, deslizamentos de terra e desmoronamentos. São eventos recorrentes e catastróficos, que custam vidas e trazem transtornos de toda sorte – do trânsito travado à interrupção de serviços públicos essenciais, passando por prejuízos milionários à economia.

G1 apurou com o governo ou com a prefeitura das capitais de 5 estados quais operações já estão em curso e quais se encontram ainda em fase de planejamento para enfrentar essas situações extremas. Também foram ouvidos pesquisadores das áreas de planejamento urbano e ambiental.

Estudiosos atentam para a necessidade de permeabilização das cidades. Ou seja, é preciso assegurar que a água da chuva passe pelo solo e seja absorvida – e não se acumule na superfície. São exemplos de áreas permeáveis: grandes espaços verdes (como parques) e locais com solo nu ou vegetação rasteira (jardins, gramados, arbustos).

Não se deve descuidar, ainda, da manutenção das bacias de rios, da recuperação de matas ciliares (vegetação às margens de rios) e da implementação de políticas habitacionais que viabilizem a saída de moradores de zonas de risco.

Em conjunto, esse apanhado de iniciativas ajudaria a enfrentar mesmo situações excepcionais, em que o volume da água da chuva supera abundantemente as previsões, como ocorrido em Belo Horizonte em janeiro, mês em que a capital mineira teve maior registro de precipitação em 110 anos.

Há cidades e estados que criaram sistemas de alerta para áreas sujeitas a enchentes ou a deslizamentos. Ou que iniciaram processo de contenção de encostas, limpeza de bocas de lobo e desassoreamento de rios. São condutas indispensáveis – mas insuficientes para afastar em definitivo riscos de novas calamidades.

Veja, abaixo, medidas que já foram tomadas e o que ainda precisa ser feito em cidades atingidas por fortes chuvas nos últimos meses ou anos:

São Paulo

Gif mostra trecho da Ponte das Bandeiras, na Marginal Pinheiros, antes e depois de alagamento desta segunda-feira (10) — Foto: Google Street View/Reprodução; Roberto Casimiro/Fotoarena/Estadão Conteúdo

A cidade de São Paulo teve na segunda-feira (10) o dia mais chuvoso desde 1995, com um temporal que travou a cidade. O volume de água registrado em um intervalo de 24 horas foi o maior para o mês de fevereiro em 37 anos, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Os rios Tietê e Pinheiros transbordaram, alangado as marginais – as vias ficaram intransitáveis. Ocorreram deslizamentos e houve prejuízo no transporte público e em outros serviços. Pessoas ficaram ilhadas.

Para especialistas, a construção de piscinões não é suficiente para absorver a chuva de grande intensidade nas marginais. A limpeza urbana e o aumento da calha de pequenos rios que deságuam no Tietê e no Pinheiros poderiam evitar inundações a curto prazo.

A longo prazo, é preciso pensar em novo planejamento urbano e investir em soluções para os rios e córregos que deságuam no dos principais.

Segundo o secretário estadual de Infraestrutura e Meio Ambiente, Marcos Penido, o sistema de drenagem e bombeamento das marginais funcionou normalmente até certo momento durante o temporal. Mas não deu conta do volume de chuva. Penido afirma que o modelo atual não foi pensado para tempestades como a desta segunda.

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Já o prefeito Bruno Covas (PSDB) disse que São Paulo precisa de 64 piscinões. Afirmou ainda, baseado na diferença entre o número ideal de obras e a infraestrutura existente na capital, que o problema com enchentes deve se repetir.

“Não há dúvida de que problema vai continuar ocorrendo até que a cidade tenha capacidade de absorver essa água. Não tem solução mágica. É continuar trabalhando e investindo”, afirmou Covas.

O que foi feito:

  • A Prefeitura de São Paulo e o governo estadual investem há anos em obras nos rios Tietê e Pinheiros e também em piscinões nos arredores (em 2019, foram entregues 5).
  • Desde a década de 1980, são realizadas obras de afundamento do rio Tietê. Em 2020, o governo do estado anunciou investimento de R$ 55 milhões para desassorear 41 km do rio; no ano passado, foram R$ 49 milhões.
  • Em 2019, o desassoreamento que foi feito ao longo de 44 quilômetros do rio Tietê retirou mais de 400 mil toneladas de sedimentos, como areia e argila.
  • A prefeitura da capital paulista também investe em um sistema de bombeamento para impedir que a água se acumule sob pontes nas marginais; o Tietê tem 53 bombas sob responsabilidade do Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado de São Paulo (Daae) – esses equipamentos passam por manutenção semanal.
  • Em 2019, as equipes da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae) registraram recorde de retirada de sedimentos do leito do Pinheiros, com carga equivalente à de 28 mil caminhões basculantes. Também houve a retirada de 9 mil toneladas de lixo das águas.
  • “Jardins de chuva”, para aumentar a permeabilidade urbana e o escoamento. Trata-se de jardins rebaixados que captam, limpam e infiltram água de captação de chuva de telhados, pisos e vias. Na região da Sé, no Centro, e no Pacaembu, na Zona Oeste, o sistema surtiu efeito, segundo a administração municipal.
  • Obras de canalização de córregos e para de alagamentos em bairros. Segundo a Prefeitura, em 2019 forma feitas dez obras pontuais que reduzem as enchentes em bairros após reclamações da comunidade.
  • O Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE), órgão da Prefeitura de São Paulo, criou um novo alerta de iminência de transbordamento para rios e córregos, para permitir que a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e a Defesa Civil atuem com mais antecedência.
  • Limpeza e reforma de bocas de lobo e bueiros, além de retirada de detritos de córregos.
  • Podas de árvores – segundo a Prefeitura, foram foram 8.668 em 2018 e 117.593 em 2019.

Um levantamento feito pelo SP2 mostrou que a Prefeitura de São Paulo usou 48% da verba reservada no orçamento para prevenção de enchentes em 2019. Do total de R$ 973 milhões previstos para o ano, apenas R$ 474 milhões foram utilizados, segundo dados de execução orçamentária do município.

O que falta fazer

Para Anderson Kazuo Nakano, que foi diretor do Departamento de Urbanismo da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano da Prefeitura de São Paulo, as obras de aprofundamento do leito dos rios não ajudam a longo prazo: “A gente vai aprofundando esse leito sem resolver os problemas dos rios e córregos que deságuam lá”.

Segundo o especialista, é preciso:

  • Colocar sistemas de retenção nesses rios que deságuam no Pinheiros e no Tietê.
  • Investir na permeabilização de solos.
  • Instalar piscininhas nos lotes.
  • Naturalizar o curso de rios e córregos de modo que as margens se tornem mais permeáveis.
  • Recuperar a mata ciliar desses cursos d’água.

“Sem adotar esse conjunto de medidas, você vai aprofundando os rios, mas a quantidade de água que chega neles só aumenta”, diz Nakano.

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